TERAPIA SEXUAL E CUIDADO CLÍNICO

Disfunções Sexuais: Compreendendo e Encontrando Soluções

Última atualização em 01/10/2026 por Maritza

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Disfunções Sexuais: Compreendendo as Dificuldades

 

Falar sobre dificuldades sexuais nem sempre é fácil. Muitas pessoas convivem durante meses ou até anos com mudanças no desejo, dificuldades de excitação, alterações na resposta sexual ou dor durante as relações, mas sentem vergonha de procurar ajuda.

Além disso, algumas pessoas acreditam que uma dificuldade sexual significa que existe algo “errado” com elas. No entanto, a sexualidade sofre influência de diversos fatores e pode mudar ao longo da vida. Por isso, compreender uma dificuldade sexual exige olhar para a pessoa de maneira ampla, considerando seu corpo, suas emoções, seus relacionamentos, suas experiências e o contexto em que aquela dificuldade acontece.

As disfunções sexuais incluem diferentes condições que podem afetar o desejo, a excitação, o orgasmo ou provocar dor relacionada à atividade sexual. A classificação atual da CID-11 reúne essas condições no capítulo de saúde sexual e abandona a antiga separação rígida entre problemas “orgânicos” e “não orgânicos”.

As disfunções sexuais correspondem a dificuldades persistentes ou recorrentes relacionadas ao funcionamento sexual que podem provocar sofrimento significativo ou dificuldades na vida pessoal e relacional.

Elas podem aparecer em diferentes momentos da resposta sexual. Por exemplo, algumas pessoas apresentam redução do desejo, enquanto outras sentem vontade de ter relações, mas encontram dificuldade para alcançar ou manter a excitação.

Também existem dificuldades relacionadas ao orgasmo, à ejaculação, à ereção ou à presença de dor durante a atividade sexual.

Entre as manifestações que podem aparecer estão:

  • redução ou ausência de desejo sexual;
  • dificuldades de excitação;
  • dificuldade de ereção;
  • ejaculação precoce;
  • ejaculação retardada ou ausente;
  • dificuldade para atingir o orgasmo;
  • dor relacionada à atividade sexual;
  • dificuldades de penetração associadas à dor ou contração involuntária;
  • outras alterações da resposta sexual.

Entretanto, apresentar ocasionalmente uma dessas dificuldades não significa necessariamente ter uma disfunção sexual. A resposta sexual pode variar de acordo com o momento de vida, o relacionamento, o estado emocional, o contexto e as condições de saúde.

Por isso, precisamos avaliar a frequência, a persistência, o contexto e, principalmente, o sofrimento provocado pela dificuldade.

Uma avaliação que considera a diversidade

A avaliação das dificuldades sexuais precisa considerar a diversidade das relações e das experiências sexuais. Embora os atuais sistemas diagnósticos tenham avançado nessa direção, parte da literatura e dos instrumentos utilizados historicamente na sexualidade foi construída a partir de modelos e amostras predominantemente heterossexuais. Por isso, a avaliação clínica não deve se limitar a um único modelo de relacionamento ou de experiência sexual.

A sexualidade não funciona de forma isolada

Uma das principais questões que precisamos compreender é que o funcionamento sexual não depende de um único fator.

Uma pessoa pode apresentar dificuldade de desejo durante um período de intenso estresse. Outra pode perceber alterações sexuais depois de iniciar um determinado medicamento. Alguém pode apresentar dificuldade de ereção associada à ansiedade de desempenho. Da mesma forma, conflitos no relacionamento podem interferir no desejo, na excitação e na satisfação sexual.  Assim, fatores físicos e psicológicos podem interagir e influenciar uns aos outros.

A CID-11 representa justamente esse avanço ao reunir as disfunções sexuais e os transtornos relacionados à dor sexual em uma classificação de saúde sexual, reconhecendo a interação entre fatores fisiológicos e psicológicos ou comportamentais.

Quais fatores podem estar envolvidos?

As causas ou fatores associados às dificuldades sexuais são variados.

Fatores físicos

Condições de saúde, alterações hormonais, doenças crônicas, alterações genitais, mudanças relacionadas ao envelhecimento e determinados medicamentos podem interferir na resposta sexual.

Além disso, situações como menopausa, pós-parto ou algumas condições urogenitais podem modificar desejo, excitação, lubrificação ou provocar dor. Alguns medicamentos também podem afetar a função sexual. Por esse motivo, uma avaliação médica pode ser importante quando existe suspeita de um componente físico.

Fatores emocionais e psicológicos

Ansiedade, estresse, depressão, baixa autoestima, preocupação com o desempenho e experiências sexuais negativas podem interferir na sexualidade.  Por exemplo, quando uma pessoa começa a se preocupar excessivamente com sua capacidade de ter ou manter uma ereção, essa preocupação pode aumentar a ansiedade durante a interação sexual e dificultar ainda mais a resposta sexual.

Da mesma forma, sentimentos de culpa, vergonha ou medo podem interferir no desejo, na excitação e na capacidade de permanecer presente durante a intimidade.

Fatores relacionais

A sexualidade também acontece dentro de relacionamentos e contextos específicos. Dificuldades de comunicação, ressentimentos, conflitos, diferenças de desejo, falta de intimidade ou dificuldades para expressar necessidades podem repercutir diretamente na vida sexual.

A comunicação, portanto, ocupa um lugar importante na construção da intimidade. No artigo Comunicação na Sexualidade do Casal: Como Fortalecer a Intimidade, explico como a comunicação pode favorecer a compreensão, a expressão de necessidades e a construção de relações mais saudáveis.

Por isso, quando uma pessoa apresenta uma dificuldade sexual dentro de um relacionamento, considero importante compreender não apenas o que acontece durante o sexo, mas também o que acontece entre os encontros sexuais.

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Quando uma dificuldade sexual se torna um problema?

Nem toda variação na resposta sexual representa uma disfunção.  Desejo, excitação e interesse sexual podem oscilar ao longo da vida. Além disso, fatores como cansaço, estresse, mudanças no relacionamento, gravidez, pós-parto, menopausa, doenças e medicamentos podem modificar temporariamente a dinâmica sexual.

Por isso, não devemos transformar toda mudança sexual em um diagnóstico.  O sofrimento da pessoa e o impacto que a dificuldade produz na sua vida precisam fazer parte dessa avaliação.

Em outras palavras, mais importante do que perguntar apenas “qual é o problema?” é compreender:

  • Quando essa dificuldade começou?
  • Ela acontece sempre ou apenas em determinadas situações?
  • Acontece com todos os parceiros ou apenas em um contexto específico?
  • Como a pessoa se sente diante dessa dificuldade?
  • Existe sofrimento ou preocupação significativa?
  • Como isso interfere no relacionamento?
  • Houve alguma mudança física, emocional ou relacional antes do aparecimento do problema?

Essas perguntas ajudam a compreender a dificuldade dentro do contexto em que ela acontece.

Como a terapia sexual pode ajudar?

A terapia sexual pode contribuir para a compreensão e o tratamento de diferentes dificuldades sexuais. Primeiramente, o processo busca compreender a história da pessoa, sua queixa e o contexto em que a dificuldade aparece.

A partir dessa avaliação, podemos investigar fatores emocionais, comportamentais, relacionais e cognitivos que possam estar contribuindo para a manutenção do problema.

Dependendo da demanda, o trabalho pode envolver educação sexual, identificação e reestruturação de crenças, redução da ansiedade de desempenho, desenvolvimento de comunicação, autoconhecimento, consciência corporal, exercícios terapêuticos e outras estratégias adequadas ao caso.

Além disso, quando identifico a necessidade de avaliação médica ou de outro profissional de saúde, considero importante estabelecer esse diálogo. Algumas dificuldades sexuais exigem uma abordagem multidisciplinar, e a terapia sexual pode fazer parte desse cuidado.

Quando o casal também participa do processo?

Algumas dificuldades sexuais aparecem ou se mantêm dentro da dinâmica do casal.  Diferenças de desejo, dificuldades de comunicação, conflitos, ressentimentos ou expectativas diferentes sobre a vida sexual podem afetar os dois parceiros.  Nesses casos, trabalhar apenas a dimensão individual pode não ser suficiente.

A terapia de casal com foco em sexualidade pode ajudar os parceiros a conversar sobre aquilo que muitas vezes permanece silenciado: desejo, frequência, prazer, limites, fantasias, frustrações e expectativas.

O objetivo não é simplesmente aumentar a frequência das relações sexuais. O objetivo é ajudar o casal a construir uma vida íntima que respeite as necessidades, os limites e os desejos de ambos.

E quando existe uma condição médica?

Uma dificuldade sexual pode ter componentes físicos, psicológicos ou uma combinação de diferentes fatores.  Por isso, quando uma condição médica participa do quadro, não precisamos escolher entre tratamento médico e terapia sexual.  Pelo contrário, os dois cuidados podem se complementar.

Uma pessoa pode, por exemplo, apresentar uma condição física que afeta sua função sexual e, posteriormente, desenvolver ansiedade, insegurança ou medo de novas dificuldades. Nesse caso, tratar apenas o componente físico pode não resolver toda a experiência vivida pela pessoa.

Da mesma forma, quando medicamentos ou outras condições de saúde interferem na sexualidade, a avaliação médica pode ser fundamental para investigar possibilidades de manejo.

O impacto das disfunções sexuais

As dificuldades sexuais podem ultrapassar o momento da relação.  Quando uma pessoa passa a antecipar uma possível falha, pode evitar situações íntimas, sentir vergonha, questionar o próprio corpo ou acreditar que perdeu sua capacidade de sentir prazer.  Consequentemente, a dificuldade sexual pode afetar autoestima, confiança, intimidade e relacionamento.

No entanto, esse impacto não significa que a pessoa esteja condenada a permanecer nesse ciclo.  Quando compreendemos os fatores envolvidos e trabalhamos aqueles que podem ser modificados, podemos construir novas formas de vivenciar a sexualidade.

Não existe uma solução única

Cada dificuldade sexual apresenta uma história diferente. Por isso, não acredito em uma abordagem baseada simplesmente em aplicar a mesma técnica para todas as pessoas. Em vez disso, procuro compreender como aquela dificuldade surgiu, quais fatores podem estar mantendo o problema e quais recursos podem ajudar aquela pessoa ou aquele casal.

Algumas pessoas precisam principalmente de informação e educação sexual. Afinal, conhecer o próprio corpo, compreender a resposta sexual e questionar crenças equivocadas também pode fazer parte do processo terapêutico. No artigoEducação sexual: Promovendo saúde Consciência e relacionamentos mais saudáveis, explico por que a educação sexual vai muito além da transmissão de informações sobre sexo e pode contribuir para uma vivência mais consciente da sexualidade.

Outras pessoas precisam trabalhar ansiedade, crenças ou autoestima. Em determinados casos, questões relacionais ocupam um lugar central. Em outros, uma avaliação médica precisa fazer parte do processo.

A intervenção, portanto, precisa acompanhar a necessidade apresentada.

Procurar ajuda também é cuidar da sexualidade

Muitas pessoas esperam que a dificuldade desapareça sozinha. Outras passam anos tentando lidar com ela sem conversar com ninguém.  Entretanto, quanto mais tempo uma dificuldade provoca sofrimento, mais importante pode ser buscar uma avaliação adequada.

Você não precisa esperar que o problema afete profundamente seu relacionamento ou sua autoestima para procurar ajuda.  Conversar sobre sexualidade em um espaço seguro pode ser o primeiro passo para compreender o que está acontecendo e descobrir quais possibilidades de cuidado existem.

Conclusão

As disfunções sexuais podem envolver diferentes aspectos da vida de uma pessoa. Por isso, precisamos evitar explicações simplistas e compreender a interação entre fatores físicos, psicológicos, relacionais e contextuais.

A terapia sexual pode contribuir para esse processo ao oferecer um espaço seguro para investigar a dificuldade, compreender seus possíveis fatores associados e desenvolver estratégias individualizadas.

Mais do que buscar uma solução rápida, o objetivo é compreender a sexualidade de maneira ampla e construir possibilidades de mudança que façam sentido para cada pessoa.

Se você enfrenta uma dificuldade sexual que provoca sofrimento, insegurança ou interfere no seu relacionamento, a terapia sexual pode ser um espaço para compreender essa experiência e buscar novas possibilidades.

Conheça a terapia sexual e veja como funciona o meu trabalho com pessoas e casais.

 

 


Maritza Silva é terapeuta de relacionamentos e sexualidade, analista comportamental e educadora. Atua com foco em saúde emocional, sexualidade consciente e vínculos afetivos, integrando práticas baseadas em evidências, acolhimento e escuta qualificada. 🌿 Para acompanhar mais conteúdos ou conhecer seu trabalho, acesse os links acima.

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