RELACIONAMENTOS

Violência Doméstica e Risco de Suicídio

Última atualização em 17/09/2026 por Maritza

Violência-Domestica-e- Risco-de-Suicídio-maritzasilva

 

Violência Doméstica e Risco de Suicídio

Setembro é marcado por ações de conscientização sobre a prevenção do suicídio, especialmente em torno do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro.

Por isso, falar sobre saúde mental também significa olhar para situações que podem produzir sofrimento intenso e prolongado. Entre elas, está a violência doméstica e, especialmente, a violência praticada por parceiros ou ex-parceiros íntimos.

Viver em uma relação marcada por controle, ameaças, humilhações, agressões ou coerção pode afetar profundamente a saúde emocional. Além disso, quando a violência se prolonga, a pessoa pode experimentar medo constante, isolamento, desesperança e sensação de perda de autonomia.

Nesse contexto, pesquisas vêm encontrando uma associação importante entre violência por parceiro íntimo e pensamentos e comportamentos suicidas.

Isso não significa que toda pessoa que vivencia violência desenvolverá ideação suicida ou que a violência seja o único fator envolvido. O comportamento suicida é complexo e resulta da interação de diferentes fatores. Entretanto, reconhecer a violência como um importante fator de risco pode ajudar na identificação precoce do sofrimento e na construção de estratégias de proteção.

O que caracteriza a violência doméstica?

A violência em um relacionamento não se resume à agressão física.

Ela pode assumir diferentes formas, incluindo violência psicológica, sexual, patrimonial, moral e física. Além disso, comportamentos de controle e coerção podem fazer parte da dinâmica abusiva.

Controle excessivo, ameaças, humilhações, isolamento de familiares e amigos, monitoramento constante, controle financeiro, coerção sexual e destruição de objetos são alguns exemplos de comportamentos que podem fazer parte de uma relação violenta.

Nem sempre a violência começa com uma agressão física.

Em muitos casos, o controle e a desvalorização aparecem gradualmente. Com o tempo, a pessoa pode começar a modificar seu comportamento para evitar conflitos, tentando antecipar as reações do parceiro.

Assim, sua liberdade de escolha pode diminuir progressivamente.

Como a violência afeta a saúde mental?

A exposição contínua à violência pode produzir consequências importantes para a saúde física e emocional.

Medo, ansiedade, tristeza, vergonha, culpa, dificuldade para dormir, isolamento social e perda de autoestima podem aparecer ao longo desse processo.

Além disso, algumas pessoas passam a questionar sua própria percepção da realidade. Depois de ouvir repetidamente que são culpadas pelos conflitos, exageradas ou incapazes de tomar decisões, podem começar a desconfiar de seus próprios sentimentos e julgamentos.

A violência também pode reduzir o acesso à rede de apoio.

Quando o agressor controla contatos, dinheiro, deslocamentos ou relações familiares, torna-se mais difícil procurar ajuda e imaginar alternativas para aquela situação.

Por isso, o sofrimento psicológico não pode ser analisado separadamente das condições concretas em que a pessoa está vivendo.

Violência e risco de suicídio

A relação entre violência por parceiro íntimo e comportamento suicida vem sendo investigada em diferentes países.

Uma revisão sistemática e meta-análise recente encontrou associação entre violência por parceiro íntimo e ideação e tentativas de suicídio entre mulheres. Os resultados também indicaram associação para diferentes formas de violência, incluindo a violência psicológica, física e sexual.

Esse dado é especialmente importante porque mostra que o impacto da violência não está restrito às agressões que deixam marcas visíveis.

A violência psicológica também pode produzir sofrimento significativo.

No Brasil, um estudo publicado em 2025 analisou casos de suicídio entre mulheres residentes em Campinas e identificou associação entre ter sofrido violência por parceiro íntimo e o suicídio feminino.

Entretanto, é importante compreender esses resultados com cuidado.

A presença de violência não significa que exista uma relação simples e direta entre uma agressão e um suicídio. O comportamento suicida envolve múltiplos fatores, que podem incluir sofrimento psíquico, condições sociais, histórico de violência, uso de substâncias, condições de saúde mental, isolamento e outras circunstâncias.

Por isso, identificar a violência é uma parte importante da avaliação de risco, mas não substitui uma avaliação ampla da situação.

Quando surge a desesperança

Uma das consequências mais preocupantes do sofrimento prolongado é a sensação de que nada pode mudar.

A pessoa pode começar a pensar que não existem alternativas, que ninguém poderá ajudá-la ou que permanecer naquela situação é inevitável.

Entretanto, essa percepção pode estar relacionada ao próprio contexto de violência.

Quando alguém vive durante muito tempo sob ameaça, controle e desvalorização, sua capacidade de perceber possibilidades pode ficar comprometida. Além disso, o medo de represálias pode tornar qualquer tentativa de mudança aparentemente perigosa.

Por isso, uma pessoa em situação de violência não deve ser julgada por ainda permanecer na relação.

Perguntas como “por que você não vai embora?” podem aumentar a culpa e o isolamento.

Uma abordagem mais acolhedora é perguntar:

“O que está impedindo você de se sentir segura?”

“De que tipo de ajuda você precisa neste momento?”

“Existe alguém em quem você confia e que possa estar ao seu lado?”

Essas perguntas podem abrir espaço para uma conversa mais segura e respeitosa.

Como oferecer apoio?

Se alguém próximo contar que está vivendo uma situação de violência, procure escutar sem julgamentos.

Não é necessário ter todas as respostas.

Em primeiro lugar, demonstre que você acredita no relato e reconhece a gravidade da situação. Depois, pergunte como pode ajudar.

Além disso, respeite a autonomia da pessoa.

Tomar decisões por ela, pressioná-la a terminar imediatamente o relacionamento ou confrontar o agressor sem avaliar os riscos pode aumentar a vulnerabilidade.

Em situações de violência, segurança precisa ser considerada antes de qualquer intervenção.

Uma rede de apoio pode incluir familiares, amigos, profissionais de saúde, serviços especializados e equipamentos da rede de proteção.

Quando existe risco de suicídio, também é fundamental buscar avaliação profissional.

E quando existe ideação suicida?

Se uma pessoa disser que está pensando em morrer ou em tirar a própria vida, leve essa fala a sério.

Não minimize o sofrimento com frases como “isso é apenas uma fase” ou “você precisa ser forte”.

Em vez disso, permaneça disponível para escutar e ajude a pessoa a chegar a um serviço de atendimento.

Se houver risco imediato, procure atendimento de urgência.

No Brasil, é possível buscar ajuda em uma Unidade Básica de Saúde, CAPS, UPA, pronto-socorro ou pelo SAMU, no número 192.

O Centro de Valorização da Vida também oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia.

Quando a situação envolve violência contra a mulher, o Ligue 180 oferece orientação, acolhimento e informações sobre a rede de atendimento. Em uma situação de emergência ou risco imediato, o número 190 deve ser acionado.

Você não precisa enfrentar uma situação de violência ou uma crise suicida sozinho.

Reconstruindo a vida depois da violência

Sair de uma relação abusiva pode ser um processo complexo.

Por isso, reconstruir a vida não significa simplesmente terminar o relacionamento e seguir em frente.

Pode ser necessário recuperar vínculos, reorganizar a vida financeira, reconstruir a autoestima, retomar atividades interrompidas e aprender novamente a reconhecer limites e necessidades.

A terapia também pode contribuir para esse processo.

O trabalho terapêutico pode ajudar a pessoa a compreender os efeitos da violência, fortalecer recursos internos e externos, reconhecer padrões relacionais e reconstruir gradualmente uma percepção mais segura de si mesma.

Entretanto, a terapia não deve ser entendida como uma responsabilidade exclusiva da vítima.

A proteção também depende de acesso à saúde, assistência social, segurança, justiça e outros serviços da rede de proteção.

Você não está sozinho

A violência doméstica pode produzir sofrimento profundo, mas o sofrimento não precisa ser enfrentado em silêncio.

Se você está vivendo uma relação abusiva, talvez ainda não saiba qual será o próximo passo. Mesmo assim, buscar informação e conversar com alguém de confiança já pode ser uma forma de começar a construir possibilidades.

Se você conhece alguém nessa situação, ofereça presença, escuta e apoio sem julgamentos.

E, se houver pensamentos sobre morte ou suicídio, procure ajuda imediatamente.

Sua vida importa. Seu sofrimento merece ser levado a sério. E pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Setembro nos convida a falar sobre prevenção do suicídio, mas essa conversa não precisa terminar quando o mês acaba. Ela precisa continuar sempre que alguém estiver sofrendo e precisar ser ouvido.

Se você está passando por uma situação de violência ou conhece alguém que esteja, procure ajuda profissional e utilize os serviços da rede de proteção disponíveis.

 

Se você precisa de ajuda agora:

  • CVV — 188: apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuito, 24 horas.
  • SAMU — 192: emergência de saúde.
  • 190: emergência policial.
  • Ligue 180: orientação e atendimento para mulheres em situação de violência, 24 horas

Referências:

  • Alimoradi et al. (2026) — revisão sistemática e meta-análise sobre violência por parceiro íntimo, ideação e tentativas de suicídio. É provavelmente a referência científica mais importante para o argumento central do artigo.
  • Ciência & Saúde Coletiva (2025)Associação entre violência por parceiro íntimo e suicídio de mulheres moradoras de Campinas-Brasil: estudo caso-controle. É particularmente valiosa porque traz dados brasileiros.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS) — dados atualizados sobre violência contra mulheres e suas consequências para a saúde mental. A OMS publicou em 2025 as estimativas globais mais recentes, referentes a dados até 2023, e atualizou a ficha sobre violência contra mulheres em 2026.
  • Ministério da Saúde — página oficial de prevenção do suicídio, com os serviços de atendimento no Brasil.
  • Ministério das Mulheres — Ligue 180 — fonte oficial para orientação e rede de proteção às mulheres em situação de violência.

Maritza Silva é terapeuta de relacionamentos e sexualidade, analista comportamental e educadora. Atua com foco em saúde emocional, sexualidade consciente e vínculos afetivos, integrando práticas baseadas em evidências, acolhimento e escuta qualificada. 🌿 Para acompanhar mais conteúdos ou conhecer seu trabalho, acesse os links acima.

Deixe seu comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Rolagem Suave